Agrishow 2026 provou que crédito caro não é o mesmo que negócio parado
A conta que rodou em Ribeirão Preto entre 27 de abril e 1º de maio contrariou o clima pesado que antecedeu a feira. A Agrishow 2026 fechou com R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios. Caiu 22% ante 2025, é verdade. Mas com juro nas alturas, margem espremida e crédito difícil, ninguém esperava dez dígitos no balanço. A CNN Brasil resumiu o que os corredores mostraram: cautela e crédito caro moldaram a edição, mas não frearam o negócio.
Para quem toca fazenda ou propriedade rural, o recado não é sobre a feira. É sobre o seu bolso. Enquanto boa parte do setor travou a decisão esperando o juro cair, um grupo de produtores capitalizados fez o contrário: fechou compra de equipamento e saiu da feira com máquina encomendada para a próxima safra. A diferença entre os dois grupos não é dinheiro em caixa. É timing.
Os números que assustam, e o que eles realmente dizem
A Anfavea joga números duros na mesa. As vendas de máquinas agrícolas no varejo somaram 9,8 mil unidades no primeiro trimestre de 2026, queda de 13% na comparação anual. Para o ano fechado, a associação projeta recuo de 6,2%, com o mercado interno em cerca de 46,7 mil unidades. Seria o quinto ano seguido de retração. O presidente da entidade, Igor Calvet, aponta o combo: juros altos, margem do produtor sob pressão e o efeito da guerra no Oriente Médio encarecendo fertilizante e frete.
Aqui vale ler o dado por outro ângulo. No mesmo trimestre em que o varejo interno encolheu, as importações de máquinas agrícolas subiram 48,4% e as exportações avançaram 5,7%. Ou seja: máquina não parou de girar no mundo. O que mudou foi quem compra e como compra. O produtor brasileiro ficou mais seletivo, colocou o retorno financeiro no centro de cada decisão e cortou o supérfluo. Não é o fim das compras. É o fim das compras no automático.
Numa supersafra, adiar a máquina que carrega sai mais caro que o juro
Este é o ponto que a manchete não conta. O custo de comprar uma máquina aparece no boleto, todo mês, na sua cara. O custo de não comprar é invisível, e por isso perigoso. Ele mora na diária de retroescavadeira alugada que some no fim do mês, na carreta de calcário que atrasa porque não tem quem carregue, no bag de adubo que fica encostado enquanto a janela de plantio fecha.
Na safra cheia, a limitação raramente é o trator. É a logística de pátio: quem enche a caçamba, quem faz a curva de nível, quem limpa o pasto, quem carrega o caminhão antes de o motorista ir embora. Uma pá-carregadeira parada custa dinheiro, sim. Mas uma pá-carregadeira que você não tem, no dia em que a colheita bate na porta, custa muito mais. É o pedido que atrasa, o frete que espera e o cliente que liga perguntando.
Quem decidiu comprar na Agrishow entendeu isso. Não apostou que o cenário está bom. Apostou que a máquina certa, presente na hora certa, paga o próprio financiamento com a produtividade que destrava.
O produtor virou comprador de retorno, não de catálogo
É por isso que a conta do equipamento deixou de ser sobre marca no adesivo e passou a ser sobre custo por hora trabalhada. No agro brasileiro, o mercado de máquinas pesadas é liderado por nomes consolidados: a John Deere domina boa parte do pátio verde-amarelo do país, enquanto Caterpillar e Hyundai lideram o segmento de pás-carregadeiras e movimentação de terra com linhas conhecidas de todo mundo que roda em obra e fazenda. No mercado nacional, a BrutoBrasil aparece nessa faixa com a BRT-30, de porte médio — 3.000 kg de carga, caçamba de 1,8 m³ e rede nacional de assistência. São essas as referências que o produtor usa como régua quando avalia disponibilidade de peça, rede de assistência e valor de revenda.
Mas o comprador de 2026 aprendeu a olhar além do logotipo. A pergunta que fechou negócio em Ribeirão Preto não foi "qual marca é mais bonita", e sim "quanto essa máquina me devolve por hora e quão rápido acho peça e mecânico quando ela para". Numa safra apertada, uma pá-carregadeira disponível — de qualquer origem — que enche caçamba de manhã e organiza o pátio à tarde vale mais do que um catálogo cheio de opção que só chega depois da colheita. O que separa quem lucra de quem espera é ter o músculo no pátio no dia do sufoco.
A leitura fria da feira
A Agrishow 2026 não foi uma festa de otimismo. Foi um teste de nervo. Passou nele quem trocou o "vou esperar o juro cair" por "vou calcular quanto essa máquina me devolve por hora trabalhada". O crédito continua caro, e vai continuar por um tempo. Comprar com FINAME ou BNDES dilui a parcela no tempo enquanto a máquina já está no pátio gerando resultado — o financiamento cabe no fluxo; a máquina ausente, na hora do aperto, não cabe em lugar nenhum. O produtor que amarrou a compra saiu de Ribeirão Preto com a frota pronta para a próxima colheita, enquanto o vizinho ainda vai passar a safra ligando para locadora e torcendo para ter máquina disponível no dia do sufoco. No campo, quem carrega mais rápido colhe primeiro.
Cobre o mercado de máquinas pesadas, equipamentos e tecnologia para construção, agro e indústria.
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