O dono de areal faz a mesma conta todo dia: frete que come a margem, tributo sobre cada carga que sai da cava e obra pedindo material sem parar. E o IBGE mostrou em 11 de agosto por que essa demanda não afrouxa: o Sinapi de julho subiu 0,44% no índice geral e 0,48% na linha de insumos, onde entram areia e brita.
O custo nacional da obra chegou a R$ 1.985,10 por metro quadrado. Em doze meses o índice acumula 7,40%, acima dos 7,26% medidos até junho.
Depois do salto de junho, o canteiro não parou
Julho veio bem abaixo de junho, quando o Sinapi havia disparado 1,19%. No ano, a alta acumulada está em 4,94%.
Índice de custo subindo com obra andando quer dizer material saindo da cava. O que muda é quanto dessa alta fica com quem extrai e quanto se perde no caminho até o canteiro.
O que encarece não é só o que sai da cava
Areia, cascalho, saibro e brita valem pouco por tonelada e muito por quilômetro rodado. Quando o licenciamento empurra a frente de lavra para longe da cidade, o frete come a margem antes de o caminhão chegar à obra.
O tributarista Gustavo Maffioletti resumiu o problema em análise publicada no dia 10 de agosto pelo ND Mais: o valor que chega à obra reúne CFEM, tributos da operação, obrigações acessórias, custos regulatórios e transporte.
"O município pode acreditar que está apenas afastando uma atividade mineral, mas também pode estar encarecendo suas obras públicas, os empreendimentos imobiliários e o custo da habitação", disse Maffioletti. É a mesma disputa que aparece no licenciamento e no preço praticado nos areais e cascalheiras espalhados pelo país.
O volume em jogo não é pequeno. A ANEPAC calcula que o Brasil consumiu 640 milhões de toneladas de agregados em 2022, sendo 374 milhões só de areia e 266 milhões de brita.
Com frete alto, a tonelada se ganha no pátio
Com a margem apertada pelo frete e pela conta tributária, sobra pouco espaço para parada de manutenção fora de hora. No pátio de um porto de areia, o ciclo da carregadeira decide quantas toneladas saem por turno.
Na faixa de 2,5 a 3 toneladas de carga, a mais comum nesse tipo de operação, o pátio brasileiro está dividido. A Volvo CE é procurada pelo consumo baixo de combustível e pela cabine, que segura o operador no turno inteiro.
A SDLG entra pelo preço de aquisição e por rodar apoiada na rede de concessionárias da Volvo no Brasil, o que encurta a espera por peça. A XCMG monta máquina em Pouso Alegre, em Minas Gerais, e usa a fábrica no país para reduzir o prazo de entrega.
A Bruto Brasil ocupa a mesma classe com a BRT30, montada aqui e vendida pelo argumento do custo por tonelada movimentada, não pela potência de catálogo. Nenhuma das quatro resolve tudo: quem bate o martelo é a conta de cada operação, com horas trabalhadas por dia, distância da frente de lavra e tempo de espera por peça.
Antes do próximo índice, muda a nota fiscal
Enquanto o custo da obra sobe, a base de cobrança do setor está sendo trocada: a transição para o IBS e a CBS redesenha o que incide sobre cada carga que sai da cava. Para o areal, esse efeito aparece primeiro na nota do caminhão, e só depois no índice do IBGE.
E a distância continua mandando no preço. Cada quilômetro a mais entre a frente de lavra e o canteiro é margem que o dono do areal entrega ao frete.
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